TDAH no Japão

19.10.16

Postado por Rodolfo Veronese

 

Era a segunda vez que eu estava vindo ao Japão, e dessa vez estaria “sozinho” substituindo o Pr. Carlos Seiji que estaria no Brasil. Os planos e os preparativos para virmos por um longo prazo estavam a todo vapor e estar aqui pela segunda vez fazia parte disso. Apesar de já saber mais ou menos como era e estar bem empolgado e com convicção do chamado de Deus para nós, algo nessa viagem ia me fazer questionar tudo.

Já fazia algum tempo que estávamos tendo problemas com a Vitória na escola, relatos de distrações constantes, provas não terminadas cheias de desenho, problemas de sociabilidade e muita dificuldade com a escrita e leitura – ela fazia todas as trocas de letras possíveis em português. Começamos então um tratamento de fonoaudiologia mas com pouco efeito e acabamos tendo que levá-la a um neurologista. Nos meses antes de embarcar ao Japão, levamos a Vitória em inúmeros testes e exames e que por fim deram um diagnóstico: Transtorno do Déficit de Atenção.

Confesso que no começo eu não queria aceitar muito até porque tinha visto esse mesmo diagnóstico sendo dado a crianças cujo o problema real era a falta de capacidade dos pais em impor limites aos filhos, o que definitivamente não era nosso caso. O que piorou ainda foi termos recebido o diagnóstico eu estando aqui no Japão e a Sandra sozinha com as duas no Brasil. Na viagem de volta fui pensando e ensaiando o meu discurso de “sinto muito pessoal, obrigado pela confiança mas não vai dar mais!” Eu estava decidido que não teria como vir ao Japão com uma filha com essas dificuldades pois se em português já estava sendo difícil o que diria em japonês! Como seria na escola japonesa cheia de regras? Fora a questão do acompanhamento médico, remédios etc. Orei muito mas na minha mente só havia uma solução: impossível! Estava decidido, mas havia guardado isso para mim, nem mesmo para a Sandra eu havia falado.

Lembro de ter chegado no meio da semana e então iria no culto na IMeL Diadema no domingo. Naquele dia havia sido convidado um pastor missionário que trabalhara muitos anos no Marrocos e ele estava, “coincidentemente”, compartilhando de quando ele estava se preparando para ir em missões e como nove meses antes seu filho nascera SEM o queixo. Isso mesmo, você leu certo, o bebê nasceu com uma má formação no maxilar. Fizeram cirurgias mas era evidente que ele teria problemas no futuro e o médico sabendo dos planos do missionário, alertou que não sabia nem se o menino falaria bem o português quando mais árabe. Foi então que ele mostrou uma foto do filho adulto casado, indo ser missionário no Líbano e que falava português, espanhol, inglês, árabe e alemão.

Nesse momento eu olhei para cima e disse para Deus: ˝Ok, ok, entendi!˝ Ao terminar o culto, um amigo querido da igreja veio direto falar comigo e perguntou: ˝Essa mensagem de hoje foi pra você, né! Senti isso.˝ Ele não poderia estar mais certo.

Ao chegarmos no Japão, conseguimos vaga em um excelente hospital onde ela tem sido bem acompanhada e medicada. Não quer dizer que foi fácil e tem hora que ainda não é, mas o cuidado de Deus é visível para nós. Inclusive ela começou a diminuir a medicação pois está cada vez melhor.

tdah japão

TDAH é algo difícil de lidar no dia a dia, a cabeça dela é uma bagunça às vezes (não que a minha seja muito diferente, quem me conhece sabe) mas uma coisa que haviam nos dito é que ajudaria ter tudo bem organizado e bem rígido na rotina dela. Pois bem, existe lugar melhor para ela do que o Japão então? Não mesmo! Aqui é tudo bem planejado, organizado e isso tem sido excelente para ela.

Hoje posso dizer com propriedade que ela é a mais adaptada da nossa casa e de longe a que fala melhor japonês! Adora o Japão, a escola, a comida, os amigos daqui. Diz que do Brasil só tem saudade das pessoas.

Pode parecer só uma grande coincidência para alguns, mas descobri que quando a gente ora e crê em Deus, as coincidências acontecem muito mais.

 

 

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