Não escolhi o nome das minhas filhas

31.05.17

Postado por Sandra

 

Desde quando eu e o Rodolfo namorávamos, eu já tinha em mente quais nomes gostaria de colocar nos meus filhos! Namoramos por muito tempo (7 anos!), então ficávamos imaginando como seriam os rostinhos dos nossos filhos mestiços. Acho que todo casal sonha com os seus futuros filhos e os nomes que mais gostam, não é mesmo?

Da minha parte, o baque quando não conseguimos ter filhos e que o tratamento tão caro não tinha dado certo foi um pouco diferente dos sentimentos que o Rodolfo escreveu no post sobre a adoção da Vitória (link). Com toda certeza foi um desgaste emocional e toda vez que eu lembro bate aquela mistura de sentimentos confusos. Mas no fundo, o que eu gostaria mesmo, mais do que engravidar, poder gerar meus próprios filhos e/ou amamentar, seria formar uma família, educar uma criança, deixar um legado para ela. E isso eu conseguiria sim através da adoção. Para mim essa conclusão chegou naturalmente e já ficava sonhando com essa nova possibilidade.

não escolhi o nome das minhas filhas

A chegada da Vitória não poderia ser no melhor momento. Eu me sentia mais madura, com a certeza do que estávamos fazendo e com muita vontade de ver nossa família crescer. Ela já veio com 2 anos e 9 meses, e pulamos aquela fase de bebê pequeno, mas mesmo assim tudo foi muito mágico e precioso. Claro que esses momentos mágicos não excluíram momentos de manha máxima que foram necessários disciplina, tirada de fralda que resultaram em muitos xixis no chão, horas das refeições que duraram uma hora ou mais. Eu sabia que isso fazia parte do processo. E o nome? Deus não poderia ter nos dado a ˝Vitória˝ mais certa, tinha tudo a ver com a nossa história e, convenhamos, é um nome lindo. Ponto para Ele!

E passados exatos 2 anos e 9 meses após a adoção da Vivi, qual o bebê de 9 meses chega aos nossos cuidados? Sim, a Nicolete, Ninizilla ou simplesmente a nossa Nini. Veio como um furacão nas nossas vidas, pois além de ser uma bebê muito esperta e inteligente, era (e é) ativa como nunca. A Nicole veio confirmar que os caçulas são os mais danados (me incluo nessa descrição) e quer fazer tudo conforme a irmã mais velha, apesar de quase 5 anos de diferença. Talvez se tivesse vindo primeiro seria muito provável que seria filha única… Voltando ao nome: Nicole, outro nome lindo. Ponto para Deus novamente!

Sempre falo para a Vitória e a Nicole que Jesus tem algo muito especial para nossa família, pois juntou 4 pessoas completamente diferentes para unidos cumprirmos uma missão, claro que inclui estarmos aqui no Japão, mas muito mais que isso, de mostrar o quanto Deus realmente se importa com a história de cada um de nós e que nada, nadinha é por acaso. Tudo o que passamos tinha um propósito maior e o nosso sofrimento lá no comecinho da história não se compara ao que temos hoje. Lembre-se sempre que Deus é fiel e nos ama incondicionalmente, e o que Ele tem reservado para nós é muito melhor do que tudo aquilo que sonhamos ou planejamos.

 

 

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Nicole

24.02.16

Postado por Rodolfo Veronese

 
Parece que foi ontem que estávamos recebendo em casa a coisinha mais fofa e bagunceira que existe e que iria virar nossas vidas de cabeça para baixo. Essa semana a Nicole já está fazendo 5 anos! Como o tempo passa rápido. E para homenageá-la escrevi esse texto e espero que um dia ela possa ler e entender todo o nosso amor por ela. Todo o processo de adoção dela foi bem diferente da Vitória mas nem por isso menos intenso, apaixonante e desafiador. Assim como no texto contando a história da Vivi, recomendamos lenços…

 

Filha,

Era uma quarta-feira comum de dezembro quando o telefone tocou e atenderíamos a ligação que mudaria nossas vidas para sempre. Era um convite para irmos na próxima sexta-feira na vara da infância conhecer o perfil de uma menina de 9 meses, você!

Mas aquele momento começou quase 3 anos antes quando demos entrada no segundo processo de adoção pois estávamos empolgadíssimos com a experiência que tivemos com a sua irmã, a Vitória.

Confesso que foram anos que eu achei que estaria preparado, afinal já tinha passado tanta coisa com a sua irmã. Eu estava enganado, o nervosismo e a ansiedade tomaram conta de mim novamente, e os velhos medos que achei ter superado davam as caras de novo. Chegamos lá e vimos suas fotos, seu histórico e novamente eu tentava me desligar emocionalmente em uma tentativa pífia e até infantil de não sofrer caso desse errado.

E então fomos no abrigo e você nos foi apresentada, uma coisinha fofa, carequinha e com olhões arregalados. Sua irmã se apaixonou na hora, sua mãe também e eu ainda resistia.

Brincamos, pegamos você no colo e decidimos que ficaríamos com você. Achamos que teríamos tempo para preparar quarto, comprar as coisas mas não, os funcionários nos disseram que se você se acostumasse conosco já tinha que ir naquele mesmo dia. Porém não tínhamos nada em casa para bebê e pedimos apenas o tempo de ir no supermercado mais próximo e comprar algumas coisas bem básicas, como fralda, leite, mamadeira e banheira… não encontramos esse último item e nos viramos com uma bacia grande e redonda mesmo. Na hora de sair do colo da mamãe e ir com a funcionário você chorou, e chorou copiosamente: se pudesse falar com certeza diria: – Não, eu quero ficar com a minha mãe, eu quero essa família!

Por providência divina, sua prima Yasmin, que você ama tanto, tinha a mesma idade e sua tia Gê nos deu várias roupinhas e um berço portátil!

De repente estávamos em casa de bebê no colo com tudo revirado e nossa vida de cabeça pra baixo. O dia da sua adoção foi menos intenso do que o da sua irmã para mim mas o que viria depois seria simplesmente inacreditável e passarei o resto dos meus dias impressionado com isso. Como sua irmã veio um pouquinho maior, havíamos pulado essa etapa da fase de bebê, e com você acabamos vivendo essa fase intensamente.

Ao longos desses 5 anos fomos conhecendo melhor você. A primeira coisa que nos impressionou foi a sua esperteza, começou a falar tão rápido que nem dava para acreditar. Falava frases complexas enquanto os amigos da mesma idade só balbuciavam palavras perdidas. Você aprende muito rápido e é muito inteligente. Faz conexões entre as coisas que são a frente da sua idade mas tem muita dificuldade de se concentrar e parece estar com a cabeça ligada a todo o vapor, e o tempo todo. Por isso desde pequena tem imensa dificuldade de dormir e é preciso cantar várias músicas e histórias para sua mente desacelerar. E quanto mais cansada, mais agitada fica.

Deve ser por isso que você é tão faladeira, seja quando está reclamando e mal-humorada ou quando está contente e nos fazendo rir sem parar. Quantas vezes tive que conter o riso em meio a uma bronca por conta de algo engraçado que você disse ou fez. Você é muito espirituosa e adora dar risada, bagunçar com os outros. Definitivamente uma menina muito divertida. Adora ajudar, seja no que for, limpar a casa, montar os móveis, lavar o carro e principalmente a cozinhar, sua paixão! E faz tudo direitinho e com bastante empenho.

Bom, desde que você não esteja sendo obrigada a fazer aquilo, por que aí a coisa muda. Se tem algo que te define bem é a palavra ˝rebelde˝. Só obecede quem conquista em você esse direito, não está nem aí para títulos, cargos ou qualquer coisa que represente uma autoridade imposta. Autoridade para você somente aqueles que a conquistaram e merecem.

Você é muito determinada no que quer, para não dizer teimosa. Decidida e firme, quando tem objetivo vai atrás e passa por cima de tudo para atingi-lo. Adora ser desafiada a fazer as coisas e no fundo detesta perder. Isso misturado à sua ansiedade e curiosidade; às vezes é até perigoso mas por outro lado você não tem medo, escala as coisas, entra nos cantinhos pega qualquer coisa do chão, sem frescuras, de vez em quando sem modos também é verdade, mas definitivamente sem frescuras. Se o assunto é comida então, a ansiedade e decisão são dobradas. Uma verdadeira formiguinha que só quer saber de doces e massas, faz tudo por um chocolate e nunca recusa uma bala.

É toda carinhosa e se comunica dando abraços e beijos e se preocupa com as pessoas mas não consegue disfarçar nem um pouco quanto não está gostando de algo ou de alguém. Você não sabe mentir, se entrega quando faz coisas erradas, o que é bom mas demonstra tudo que está sentido – o que ocasionalmente lhe causa problemas de relacionamento.

E agora vem a parte mais impressionante, pois essa seria apenas uma descrição normal de uma pessoa mas, acredite minha filha, todos esses parágrafos acima, tirando a parte de cozinhar apenas, serviriam perfeitamente para descrever a mim. Claro que você tem muitas outras características mas as nossas semelhanças são muitas, muito mais do que consigo entender ou acreditar. Confesso que sempre tive muita dificuldade de lidar com você e não entedia o porquê até um dia que a minha mãe, sua avó querida, disse a frase que montou o quebra-cabeça: “- Filho, eu nem acredito, ela é igual a você quando era criança.” Ali então eu compreendi como você conseguia me fazer ficar apaixonado e com raiva ao mesmo tempo e porque era fácil para eu entender o que você pensa e ao mesmo tempo me sentir tão frustrado.

Por isso te peço perdão, filha! Por todas as vezes em que eu não soube lidar com você porque na verdade não sei lidar comigo mesmo. Pelas vezes onde, na ânsia de que você não passasse ou sofresse o que eu já sofri, fui severo demais e te fiz sofrer. Que incoerência da minha parte e que ingenuidade, pois as dores e lutas que passei até hoje também são parte da pessoa que me tornei.

E obrigado por cada dia você me ensinar a me entender mais e me amar mais. Cada vez que eu te vejo acertar eu me valorizo mais e cada vez que te vejo errar os “meus” erros percebo que ainda tenho muito que mudar. Você é um espelho da minha alma e agora entendo porque Deus tinha reservado você para ser minha filha eu O louvo e agradeço muito por isso.

Levei anos para conseguir entender, absorver e então escrever tudo isso para você e o faço em meio a muitas lágrimas de alegria e algumas de frustração, pois gostaria de ser um pai melhor.

Minha oração e meu desejo é para que você me supere em muito em tudo e se torne alguém muito melhor do que eu sou. E apesar de todas as minhas falhas eu vou tentar o meu máximo te ajudar nessa caminhada.

Nicole, minha filha amada, você pode ter nascido da barriga de outra família mas definitivamente nasceu do meu coração.

 

nicole

 

A história da Vitória nós já contamos neste post aqui.

 

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Derrota ou Vitória

15.10.14

Postado por Rodolfo Veronese

 
Domingo passado foi dia das crianças, uma data que voltou a ser muito importante para nós há 5 anos atrás quando a Vitória veio. Eu havia escrito, em 2011, um texto contando a história da adoção dela em um outro blog, mas em homenagem à ela, à Nicole e todas as crianças, vamos colocar aqui também. Espero que de alguma forma a história dela sirva de inspiração a alguém e que Deus possa falar com você também.
Prepare uns lenços porque confesso que até hoje quando leio caem ciscos no meu olho, não sei de onde!
 

Derrota ou Vitória

Seria uma noite como outra qualquer se não houvesse uma apreensão quase palpável no ar. Depois de muitos anos tentando ter filhos naturalmente, havíamos decidido recorrer a um tratamento de fertilidade com todos os seus ônus psicológicos, físicos e financeiros e agora estava se confirmando: não havia dado certo. Frustração, dor, sentimento de culpa e questionamento marcaram aquela noite que, para mim, como marido e homem, era de derrota. Tínhamos decidido que essa seria nossa única tacada, nenhum de nós dois tínhamos condições para passar por aquilo tudo novamente. Só quem passou ou está passando sabe a intensidade do que estamos falando.

Passou-se o tempo, mas não minhas dúvidas e angústias. Por que Deus não me permitia ter filhos com a mulher que ele me dera de esposa? Por que eu não poderia ter esse privilégio depois de ter dedicado minha vida a servi-lo e até iniciado meu ministério, abandonando minha carreira profissional? Tudo me parecia muito injusto.

Sandra, minha esposa, que aceitara tudo bem melhor do que eu, logo começou a falar sobre adoção. Essa palavra me remetia a sentimentos ruins, aceitar a ideia de adotar uma criança era como carimbar e assinar meu atestado de fracasso. E ainda havia os preconceitos comuns: e se a criança não gostar de mim? E se ficar revoltada? E seu um dia jogar na minha cara que não é meu filho? Eu estava averso à ideia, nem discutia e já começava a aceitar a realidade de nunca ter filhos.

Pois mal sabia o que me esperava. Estava servindo em um acampamento de adolescentes como pastor da equipe, quando o preletor, amigo meu de longa data, em umas das palestras fez uma pergunta que me intrigou: – Se a Bíblia diz que Deus tem um único Filho, como nós somos chamados seus filhos também? Adoção! Deus nos adotou! respondeu. Eu nunca havia atentado para aquele fato e a sua resposta me abalou, não ouvi mais nada do que ele falou. Levei um tempo “brigando” com aquilo dentro de mim e com Deus. Até responder a Ele que não era o que eu queria, mas que eu aceitaria a ideia de adotar. Deus sabia meus desejos, minhas vontades e pude ouvi-lo claramente me fazendo uma promessa: Eu vou lhe dar uma menininha linda!

Demos entrada na documentação, fizemos as entrevistas e todo o protocolo, mas ainda demorei para engolir tudo aquilo, e meus preconceitos continuavam vivos apesar de mais fracos. Lendo o texto parece que foi tudo automático e rápido, mas a vida não é bem assim, não é mesmo? Na escolha do perfil da criança eu quis menina, eu sempre quis menina, mas pedimos com menos de 6 meses, porque achava que a criança tinha que ser pequena para não ter problemas futuros referentes ao fato de ela ser adotada. A espera para esse perfil era de pelo menos 2 a 3 anos. Neném eu até aceitaria mas criança grande nunca, como eu havia dito, meu preconceito ainda falava.

Coincidência ou não, 9 meses se passaram da entrada dos documentos, até o dia em que um amigo, promotor de justiça de uma cidade do interior, abordou-me em uma festa de casamento perguntando se eu não gostaria de conhecer uma menina que estava no abrigo dessa cidade. Ela havia ficado uma semana com ele e a esposa no fim do ano para liberar as funcionárias do abrigo para os feriados. Descreveu a menina como muito boazinha, bonita, com cara de mesticinha (o que fazia diferença já que eu sou do tipo italiano e minha esposa japonesa), mas a idade pegava para mim: 2 anos e meio. Eu disse que sim, mas já sem muito interesse. Minha esposa, pelo contrário, já se empolgava, ficava sonhando e me perguntando o que eu pensava, e eu só respondia: – É… vamos ver!

Foi-se um mês, era uma quinta-feira, esse meu amigo me liga quase me intimando a ir conhecer a menina. Ele não queria que ela ficasse mais tempo no abrigo. Perguntou se eu poderia ir no fim de semana, mas eu seria padrinho em um casamento no sábado e tinha compromissos no domingo. A solução seria ir no meio da semana, para mim era tranquilo, mas a Sandra precisava ver com a empresa, que de maneira muito bondosa a liberou. Tudo combinado, iríamos na quarta, só avisamos as pessoas mais chegadas para não criar expectativas.

Nesses dias recebemos umas fotos da tal menina, minha esposa chorou ao ver, eu nem uma expressão sequer tive. Espantei-me com a minha própria frieza ao ver aquelas fotos, tamanha era a minha defesa para não me magoar novamente. Sinceramente não acreditava que daria certo e, portanto, não ia me deixar levar.

Quarta-feira, chegamos pela manhã e almoçamos com esse casal de amigos e à tarde fomos para o abrigo. Estava muito nervoso, desconfortável, não sabia como agir e poucas vezes senti isso tão forte assim. Chegamos, uma casa simples, uma criança que estava na porta correu para dentro, entramos e conhecemos as funcionárias, todas muito simpáticas, e sentamos em um sofá com alguns brinquedos jogados em cima, ouvíamos o som de algumas crianças mais para dentro. Estávamos conversando, eu procurava ser simpático, mas minha indiferença era bem aparente.

Da porta que levava aos quartos, entrou uma menininha na sala. Tudo parou, como aquelas cenas de filme, um rostinho meigo, meio acanhada, cabelinho preso por uma presilhinha e linda, absolutamente linda. Foi questão de segundos, mas pareceram horas. Era do jeito que eu sonhava em como seria minha filha. Tive certeza de que era uma que se desgarrou das funcionárias e veio ver quem estava na sala e, definitivamente, que não era a menina das fotos, de jeito nenhum, estava muito diferente para ser. Meu coração calejado já se preparava para o pior: a frustração de ver uma menina linda como aquela e não ser ela que eu poderia adotar. Até que a moça que nos atendia disse a frase que me paralisou de vez: – Olha ela aí!  Pensei – O quê? Essa é a menina? – Ajeitei-me no lugar e levei a mão ao rosto, eu não podia acreditar, era ela! Fiquei mais abalado do que gosto de admitir. Passei um bom tempo sem acreditar e meio sem reação. Fomos apresentados e, apesar de tímida, aquela “coisinha” linda era muito simpática.

Agora eu tinha a certeza de que eu a queria como filha, mas também tinha uma dúvida: será que ela nos queria como pais? Ficamos conversando e brincando até o momento em que ela estava no colo da esposa do meu amigo promotor que nos acompanhava e quando começou a apontar para as pessoas e dizer quem era e invariavelmente chegou na Sandra.

– E essa quem é? Quem é essa? – perguntou.

E ela acenou com a cabeça que não sabia.

– É a mamãe! – respondeu para ela – E aquele é o papai – disse apontando para mim.

Eu não podia acreditar no que eu via, seus olhinhos brilharam, sua felicidade era externada de um modo que só a inocência e sinceridade das crianças podem fazer. A funcionária, conhecendo-a bem do tempo que passara ali disse: – Finalmente né, querida! O papai e a mamãe bonzinhos que você tanto pedia! Tenho essa cena de forma tão vívida e clara na minha memória ao ponto de poder descrever detalhes do lugar, mesmo passado quase 2 anos. E creio que a terei até o fim dos meus dias.

Saímos com ela, tomamos sorvete, demos uma bonequinha de presente. E no final do dia, estávamos acertando os detalhes sobre o processo com o advogado lá no abrigo mesmo. Naquele momento não tinha mais dúvidas algumas, faria o que fosse, pagaria o que fosse preciso. Achei que não teria mais nenhuma emoção nem surpresa, mas aquela menina ainda tinha uma carta na manga para quebrar de vez meu coração duro. No meio da conversa senti uma mãozinha batendo na minha perna e me chamando, virei e lá estava ela com um caderninho na mão perguntando: – Pode esse, papai? Fiquei atônito “Papai? Papai? Ela me chamou de papai?” O advogado, e também coordenador do abrigo, com cara de espanto me disse: – Eu nunca vi chamar de pai no primeiro dia! Estávamos na dúvida se já a levarímos para dormir conosco e ele foi categórico: – Vocês já podem levá-la sim, depois dessa…

Naquela noite ela não queria dormir, relutou bastante, até percebermos que era porque estava com medo de que aquilo tudo acabasse. Acalmamos a pequena repetindo que agora era para sempre. No dia seguinte, voltamos ao abrigo para pegarmos algumas coisas para ela – afinal tinha sido tudo tão de repente que não tínhamos roupinhas nem nada – e para se despedir de todos. Ela disse tchau e veio conosco na maior naturalidade, sem chorar como ela mesmo havia prometido para uma das funcionárias que o dia que o “papai e a mamãe bonzinhos” viessem, ela não choraria.

E lá estávamos nós, com termo de guarda na mão. Que reviravolta em nossa vida, num dia apenas um casal e, literalmente, no outro já éramos pais. Na viagem de volta, lembrei da fidelidade de Deus para comigo e que eu estava recebendo a menininha linda que me prometera. Algumas vezes tive que diminuir a velocidade e até encostar para limpar as lágrimas, assim como o faço enquanto escrevo esse texto.

Como eu havia sido tão bobo, egoísta e preconceituoso. Arrogante ao ponto de achar que não ter filhos naturais me fazia um derrotado. O nome daquela menina, agora minha filha, que não fora escolhido por nós, não poderia ser mais propício, porque de um sentimento de derrota, Deus havia nos dado a Vitória!

Nos meses seguintes tivemos as alegrias e as dificuldades que quaisquer pais têm, naturais ou não: fazer comer, obedecer, tirar a chupeta, dormir junto, febres, choros de dor, de manha. E por muitas vezes no início ela nos olhou e perguntou: – Pai e mãe, Itóia? Como se não acreditasse que aquilo ainda era real. E não havia nada mais recompensador que o seu sorriso quando respondíamos: – Sim! Pai e mãe da Vitória e a gente nunca vai embora, vamos estar para sempre com você! Hoje, assim como nós, ela não tem nenhuma dúvida, em suas próprias palavras: – A gente é família e é feliz! Para mim pessoalmente, ouvir um “Papaizinho, eu te amo”, não tem preço! Faz me sentir completo.

Vitória é uma menina maravilhosa, educada, boazinha, mas que dá trabalho como qualquer outra criança. Às vezes faz coisas que nos arrancam gargalhadas; outras que precisam de disciplina. Mas uma coisa é fato, ela tem a convicção de que é amada por sua família. Fazemos questão de contar-lhe sempre a sua história. Nosso desejo é que ela cresça sabendo que é adotada sim, e tenha orgulho disso, nunca vergonha, pois sua história é um exemplo vivo do amor de Deus por seus filhos.

Omiti os nomes das pessoas que nos ajudaram tanto nessa caminhada porque não pedi autorização para publicá-los, mas nossa gratidão é eterna.

Que esse amor de Deus que nos adotou sendo nós ainda rebeldes e órfãos esteja conosco sempre.

 

Vitória

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