Vitória: líder do grupo

19.04.17

Postado por Sandra

 

Uma coisa muito interessante do Japão é o fato das crianças desde o 1º ano do ensino fundamental irem e voltarem sozinhas da escola. Algo praticamente impossível de se imaginar com nossa mentalidade brasileira.

E mesmo aqui seria algo perigoso, mas descobrimos que existe um sistema muito interessante de amadurecimento da criança nesse quesito. Como a Vitória entrou direto no 3º ano quando chegamos, pulamos algumas dessas fases e estamos descobrindo agora com os primeiros passos da Nicole no ensino fundamental.

Na ida, as crianças dificilmente vão sozinhas, na verdade existem grupos determinados em cada região que reúne as crianças que moram perto. O grupo tem uma ordem e hierarquia a ser seguida para a segurança. Todo grupo tem um líder e um vice-líder, papel que é atribuído aos mais velhos normalmente do 5º e/ou 6º que vão à frente e no fim da fila, tomando conta do grupo, ditando o ritmo e alertando os pequenos sobre perigos e ajudando a atravessar as ruas. As crianças novas do 1º ao 3º ano vão no meio da fila, sempre com os mais velhos sendo responsáveis pelos mais novos. O líder do grupo também tem a tarefa de receber os papéis de avisos de falta do aluno e entregar para os respectivos professores. No caso dos pequenos, nas primeiras semanas os pais acompanham as crianças até o ponto de encontro do grupo para conhecer o líder, mas com o tempo elas irão sozinhas em todo o trajeto.

E nesse ano, apesar de ainda ser do 5º ano, coube à Vitória a função de líder do grupo, o qual ela tem exercido com muito empenho. Como a Nicole ficou no mesmo grupo, por razões óbvias temos visto mais de perto o desempenho da Vivi como líder e ficamos muito orgulhosos de ver como ela cumpre direitinho seu papel. Saber que a irmã está junto e ser a responsável nos deu muita segurança sobre a Nicole ir até a escola por conta própria.

Podemos estar sendo pais coruja, contudo é muito gratificante ver seus filhos amadurecerem e superarem desafios. Se lembrarmos que há pouco mais de 2 anos nenhuma das duas sabia nenhuma palavra em japonês é algo bem impressionante. Também ficamos admirado como as coisas são bem pensadas aqui no Japão e a preocupação em tornar as crianças responsáveis, maduras e terem zelo uns pelos outros.

Talvez esteja aí o segredo de toda educação e consciência do bem estar coletivo que encontramos aqui.

 

vivi hancho

 

 

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Derrota ou Vitória

15.10.14

Postado por Rodolfo Veronese

 
Domingo passado foi dia das crianças, uma data que voltou a ser muito importante para nós há 5 anos atrás quando a Vitória veio. Eu havia escrito, em 2011, um texto contando a história da adoção dela em um outro blog, mas em homenagem à ela, à Nicole e todas as crianças, vamos colocar aqui também. Espero que de alguma forma a história dela sirva de inspiração a alguém e que Deus possa falar com você também.
Prepare uns lenços porque confesso que até hoje quando leio caem ciscos no meu olho, não sei de onde!
 

Derrota ou Vitória

Seria uma noite como outra qualquer se não houvesse uma apreensão quase palpável no ar. Depois de muitos anos tentando ter filhos naturalmente, havíamos decidido recorrer a um tratamento de fertilidade com todos os seus ônus psicológicos, físicos e financeiros e agora estava se confirmando: não havia dado certo. Frustração, dor, sentimento de culpa e questionamento marcaram aquela noite que, para mim, como marido e homem, era de derrota. Tínhamos decidido que essa seria nossa única tacada, nenhum de nós dois tínhamos condições para passar por aquilo tudo novamente. Só quem passou ou está passando sabe a intensidade do que estamos falando.

Passou-se o tempo, mas não minhas dúvidas e angústias. Por que Deus não me permitia ter filhos com a mulher que ele me dera de esposa? Por que eu não poderia ter esse privilégio depois de ter dedicado minha vida a servi-lo e até iniciado meu ministério, abandonando minha carreira profissional? Tudo me parecia muito injusto.

Sandra, minha esposa, que aceitara tudo bem melhor do que eu, logo começou a falar sobre adoção. Essa palavra me remetia a sentimentos ruins, aceitar a ideia de adotar uma criança era como carimbar e assinar meu atestado de fracasso. E ainda havia os preconceitos comuns: e se a criança não gostar de mim? E se ficar revoltada? E seu um dia jogar na minha cara que não é meu filho? Eu estava averso à ideia, nem discutia e já começava a aceitar a realidade de nunca ter filhos.

Pois mal sabia o que me esperava. Estava servindo em um acampamento de adolescentes como pastor da equipe, quando o preletor, amigo meu de longa data, em umas das palestras fez uma pergunta que me intrigou: – Se a Bíblia diz que Deus tem um único Filho, como nós somos chamados seus filhos também? Adoção! Deus nos adotou! respondeu. Eu nunca havia atentado para aquele fato e a sua resposta me abalou, não ouvi mais nada do que ele falou. Levei um tempo “brigando” com aquilo dentro de mim e com Deus. Até responder a Ele que não era o que eu queria, mas que eu aceitaria a ideia de adotar. Deus sabia meus desejos, minhas vontades e pude ouvi-lo claramente me fazendo uma promessa: Eu vou lhe dar uma menininha linda!

Demos entrada na documentação, fizemos as entrevistas e todo o protocolo, mas ainda demorei para engolir tudo aquilo, e meus preconceitos continuavam vivos apesar de mais fracos. Lendo o texto parece que foi tudo automático e rápido, mas a vida não é bem assim, não é mesmo? Na escolha do perfil da criança eu quis menina, eu sempre quis menina, mas pedimos com menos de 6 meses, porque achava que a criança tinha que ser pequena para não ter problemas futuros referentes ao fato de ela ser adotada. A espera para esse perfil era de pelo menos 2 a 3 anos. Neném eu até aceitaria mas criança grande nunca, como eu havia dito, meu preconceito ainda falava.

Coincidência ou não, 9 meses se passaram da entrada dos documentos, até o dia em que um amigo, promotor de justiça de uma cidade do interior, abordou-me em uma festa de casamento perguntando se eu não gostaria de conhecer uma menina que estava no abrigo dessa cidade. Ela havia ficado uma semana com ele e a esposa no fim do ano para liberar as funcionárias do abrigo para os feriados. Descreveu a menina como muito boazinha, bonita, com cara de mesticinha (o que fazia diferença já que eu sou do tipo italiano e minha esposa japonesa), mas a idade pegava para mim: 2 anos e meio. Eu disse que sim, mas já sem muito interesse. Minha esposa, pelo contrário, já se empolgava, ficava sonhando e me perguntando o que eu pensava, e eu só respondia: – É… vamos ver!

Foi-se um mês, era uma quinta-feira, esse meu amigo me liga quase me intimando a ir conhecer a menina. Ele não queria que ela ficasse mais tempo no abrigo. Perguntou se eu poderia ir no fim de semana, mas eu seria padrinho em um casamento no sábado e tinha compromissos no domingo. A solução seria ir no meio da semana, para mim era tranquilo, mas a Sandra precisava ver com a empresa, que de maneira muito bondosa a liberou. Tudo combinado, iríamos na quarta, só avisamos as pessoas mais chegadas para não criar expectativas.

Nesses dias recebemos umas fotos da tal menina, minha esposa chorou ao ver, eu nem uma expressão sequer tive. Espantei-me com a minha própria frieza ao ver aquelas fotos, tamanha era a minha defesa para não me magoar novamente. Sinceramente não acreditava que daria certo e, portanto, não ia me deixar levar.

Quarta-feira, chegamos pela manhã e almoçamos com esse casal de amigos e à tarde fomos para o abrigo. Estava muito nervoso, desconfortável, não sabia como agir e poucas vezes senti isso tão forte assim. Chegamos, uma casa simples, uma criança que estava na porta correu para dentro, entramos e conhecemos as funcionárias, todas muito simpáticas, e sentamos em um sofá com alguns brinquedos jogados em cima, ouvíamos o som de algumas crianças mais para dentro. Estávamos conversando, eu procurava ser simpático, mas minha indiferença era bem aparente.

Da porta que levava aos quartos, entrou uma menininha na sala. Tudo parou, como aquelas cenas de filme, um rostinho meigo, meio acanhada, cabelinho preso por uma presilhinha e linda, absolutamente linda. Foi questão de segundos, mas pareceram horas. Era do jeito que eu sonhava em como seria minha filha. Tive certeza de que era uma que se desgarrou das funcionárias e veio ver quem estava na sala e, definitivamente, que não era a menina das fotos, de jeito nenhum, estava muito diferente para ser. Meu coração calejado já se preparava para o pior: a frustração de ver uma menina linda como aquela e não ser ela que eu poderia adotar. Até que a moça que nos atendia disse a frase que me paralisou de vez: – Olha ela aí!  Pensei – O quê? Essa é a menina? – Ajeitei-me no lugar e levei a mão ao rosto, eu não podia acreditar, era ela! Fiquei mais abalado do que gosto de admitir. Passei um bom tempo sem acreditar e meio sem reação. Fomos apresentados e, apesar de tímida, aquela “coisinha” linda era muito simpática.

Agora eu tinha a certeza de que eu a queria como filha, mas também tinha uma dúvida: será que ela nos queria como pais? Ficamos conversando e brincando até o momento em que ela estava no colo da esposa do meu amigo promotor que nos acompanhava e quando começou a apontar para as pessoas e dizer quem era e invariavelmente chegou na Sandra.

– E essa quem é? Quem é essa? – perguntou.

E ela acenou com a cabeça que não sabia.

– É a mamãe! – respondeu para ela – E aquele é o papai – disse apontando para mim.

Eu não podia acreditar no que eu via, seus olhinhos brilharam, sua felicidade era externada de um modo que só a inocência e sinceridade das crianças podem fazer. A funcionária, conhecendo-a bem do tempo que passara ali disse: – Finalmente né, querida! O papai e a mamãe bonzinhos que você tanto pedia! Tenho essa cena de forma tão vívida e clara na minha memória ao ponto de poder descrever detalhes do lugar, mesmo passado quase 2 anos. E creio que a terei até o fim dos meus dias.

Saímos com ela, tomamos sorvete, demos uma bonequinha de presente. E no final do dia, estávamos acertando os detalhes sobre o processo com o advogado lá no abrigo mesmo. Naquele momento não tinha mais dúvidas algumas, faria o que fosse, pagaria o que fosse preciso. Achei que não teria mais nenhuma emoção nem surpresa, mas aquela menina ainda tinha uma carta na manga para quebrar de vez meu coração duro. No meio da conversa senti uma mãozinha batendo na minha perna e me chamando, virei e lá estava ela com um caderninho na mão perguntando: – Pode esse, papai? Fiquei atônito “Papai? Papai? Ela me chamou de papai?” O advogado, e também coordenador do abrigo, com cara de espanto me disse: – Eu nunca vi chamar de pai no primeiro dia! Estávamos na dúvida se já a levarímos para dormir conosco e ele foi categórico: – Vocês já podem levá-la sim, depois dessa…

Naquela noite ela não queria dormir, relutou bastante, até percebermos que era porque estava com medo de que aquilo tudo acabasse. Acalmamos a pequena repetindo que agora era para sempre. No dia seguinte, voltamos ao abrigo para pegarmos algumas coisas para ela – afinal tinha sido tudo tão de repente que não tínhamos roupinhas nem nada – e para se despedir de todos. Ela disse tchau e veio conosco na maior naturalidade, sem chorar como ela mesmo havia prometido para uma das funcionárias que o dia que o “papai e a mamãe bonzinhos” viessem, ela não choraria.

E lá estávamos nós, com termo de guarda na mão. Que reviravolta em nossa vida, num dia apenas um casal e, literalmente, no outro já éramos pais. Na viagem de volta, lembrei da fidelidade de Deus para comigo e que eu estava recebendo a menininha linda que me prometera. Algumas vezes tive que diminuir a velocidade e até encostar para limpar as lágrimas, assim como o faço enquanto escrevo esse texto.

Como eu havia sido tão bobo, egoísta e preconceituoso. Arrogante ao ponto de achar que não ter filhos naturais me fazia um derrotado. O nome daquela menina, agora minha filha, que não fora escolhido por nós, não poderia ser mais propício, porque de um sentimento de derrota, Deus havia nos dado a Vitória!

Nos meses seguintes tivemos as alegrias e as dificuldades que quaisquer pais têm, naturais ou não: fazer comer, obedecer, tirar a chupeta, dormir junto, febres, choros de dor, de manha. E por muitas vezes no início ela nos olhou e perguntou: – Pai e mãe, Itóia? Como se não acreditasse que aquilo ainda era real. E não havia nada mais recompensador que o seu sorriso quando respondíamos: – Sim! Pai e mãe da Vitória e a gente nunca vai embora, vamos estar para sempre com você! Hoje, assim como nós, ela não tem nenhuma dúvida, em suas próprias palavras: – A gente é família e é feliz! Para mim pessoalmente, ouvir um “Papaizinho, eu te amo”, não tem preço! Faz me sentir completo.

Vitória é uma menina maravilhosa, educada, boazinha, mas que dá trabalho como qualquer outra criança. Às vezes faz coisas que nos arrancam gargalhadas; outras que precisam de disciplina. Mas uma coisa é fato, ela tem a convicção de que é amada por sua família. Fazemos questão de contar-lhe sempre a sua história. Nosso desejo é que ela cresça sabendo que é adotada sim, e tenha orgulho disso, nunca vergonha, pois sua história é um exemplo vivo do amor de Deus por seus filhos.

Omiti os nomes das pessoas que nos ajudaram tanto nessa caminhada porque não pedi autorização para publicá-los, mas nossa gratidão é eterna.

Que esse amor de Deus que nos adotou sendo nós ainda rebeldes e órfãos esteja conosco sempre.

 

Vitória

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